O amor que choveu – Antonio Prata

14 07 2008

Era uma vez um menino que amava demais. Amava tanto, mas tanto, que o amor nem cabia dentro dele. Saía pelos olhos, brilhando, pela boca, cantando, pelas pernas, tremendo, pelas mãos, suando. (Só pelo umbigo é que não saía: o nó ali é tão bem dado que nunca houve um só que tenha soltado).
O menino sabia que o único jeito de resolver a questão era dando o amor à menina que amava. Mas como saber o que ela achava dele? Na classe, tinha mais quinze meninos. Na escola, trezentos. No mundo, vai saber, uns dois bilhões? Como é que ia acontecer de a menina se apaixonar justo por ele, que tinha se apaixonado por ela?
O menino tentou trancar o amor numa mala, mas não tinha como: nem sentando em cima o zíper fechava. Resolveu então congelar, mas era tão quente, o amor, que fundiu o freezer, queimou a tomada, derrubou a energia do prédio, do quarteirão e logo o menino saiu andando pela cidade escura — só ele brilhando nas ruas, deixando pegadas de Star Fix por onde pisava.
O que é que eu faço? — perguntou ao prefeito, ao amigo, ao doutor e a um pessoalzinho que passava a vida sentado em frente ao posto de gasolina. Fala pra ela! — diziam todos, sem pensar duas vezes, mas ele não tinha coragem. E se ela não o amasse? E se não aceitasse todo o amor que ele tinha pra dar? Ele ia murchar que nem uva passa, explodir como bexiga e chorar até 31 de dezembro de 2978.
Tomou então a decisão: iria atirar seu amor ao mar. Um polvo que se agarrasse a ele — se tem oito braços para os abraços, por que não quatro corações, para as suas paixões? Ele é que não dava conta, era só um menino, com apenas duas mãos e o maior sentimento do mundo.
Foi até a beira da praia e, sem pensar duas vezes, jogou. O que o menino não sabia era que seu amor era maior do que o mar. E o amor do menino fez o oceano evaporar. Ele chorou, chorou e chorou, pela morte do mar e de seu grande amor.
Até que sentiu uma gota na ponta do nariz. Depois outra, na orelha e mais outra, no dedão do pé. Era o mar, misturado ao amor do menino, que chovia do Saara à Belém, de Meca à Jerusalém. Choveu tanto que acabou molhando a menina que o menino amava. E assim que a água tocou sua língua, ela saiu correndo para a praia, pois já fazia meses que sentia o mesmo gosto, o gosto de um amor tão grande, mas tão grande, que já nem cabia dentro dela.

Publicado na revista Capricho.





Medo da Eternidade – Clarice Lispector

2 07 2008

Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.

Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.

Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:

- Como não acaba? – Parei um instante na rua, perplexa.

- Não acaba nunca, e pronto.

- Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.

- Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.

- E agora que é que eu faço? – Perguntei para não errar no ritual que certamente deveira haver.

- Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.

- Perder a eternidade? Nunca.

O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.

- Acabou-se o docinho. E agora?

- Agora mastigue para sempre.

Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito.

Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.

Até que não suportei mais, e, atrevessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.

- Olha só o que me aconteceu! – Disse eu em fingidos espanto e tristeza. – Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!

- Já lhe disse – repetiu minha irmã – que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.

Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.

Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.





Gabriela cravo e canela

25 06 2008

As portas fecharam. Agora podiam mais calmamente relembrar o dia, os anseios ou simplesmente deitar e domir. Ela não fazia apenas isso. Sentava na cama e escrevia algo, como de costume.
Naquela noite estava angustiada. Inquieta. As palavras escorriam para o papel numa voracidade incomum. Algo a perturbava.
Havia tido poucos, raros namorados. Seu pai não gostava que saísse muito e também, não simpatizava com aqueles rapazes mais, digamos, ardentes. Sim, pois eram os seus preferidos.
Nos dezenove anos em que vivera, pouco entendia sobre traição e mesmo com tão fouco assim traíra Carlos, seu último e secreto namorado.
O relógio da sala batia a décima badalada e antes que ela pudesse terminar o parágrafo Carlos apareceu sorridente na janela. Fechou o caderno, apagou a luz e acendeu o que ainda restava daquela vela que já havia presenciado horas e horas de beijos e carícias.
Gabriela não conseguiu conter-se. Ainda hesitou mas ergueu-se disposta a assumir sua traição. Trêmula, abraçou Carlos. A porta do quarto se abriu. Era seu pai que havia ido fechar as janelas, aquela noite fresca de maio prometia agora uma tempestade.





Lennon

21 06 2008

‘Vivemos num mundo onde temos que nos esconder para fazer amor, enquanto a violência é praticada em plena luz do dia.’





Ela e Ela – Antonio Prata

17 06 2008

Fui apaixonado pela Luana da primeira à quarta série. Lembro daquela época como se fosse uma novela mexicana: pernas bambas no recreio; rápidos toques, desajeitados, no pega-pega; noites sem dormir, com um nó na garganta, só pensando nela. Amar é mesmo uma encrenca.
Se já era difícil para mim, um menino, gostar de uma menina, imagino como seria se meu coração batesse forte por alguém do mesmo sexo.
Tenho certeza de que agora, enquanto lêem esse texto, muitas garotas estão ficando nervosas.
Talvez as bochechas tenham corado. O coração acelerado. São garotas que, assim como eu, quando se deitam na cama, pensam em alguma Luana, com muito amor – e culpa. Por que será que é assim? Por que é tão complicado aceitarmos que garotos possam amar garotos e garotas apaixonem-se por garotas? Realmente, não sei. A homossexualidade é tão velha quanto o preconceito.
O que aprendi da Luana pra cá, é que se tem alguma ordem da qual não podemos fugir é a do próprio desejo. E isso é bom. É como se houvesse uma bomba-relógio dentro da gente, cujo tique-taque nos obrigasse a caminhar em direção à felicidade. Não temos escolha: ou lutamos pelo que queremos ou definhamos. No caso de um pedaço de bolo, da vontade de sair na véspera de uma prova ou outra coisa menos, beleza: abrimos mão do que desejamos e engolimos achateação. No caso do amor, não: durante nossa breve passagem pela Terra, não encontraremos nada mais sério do que ele. nem o trabalho, nem a poesia, o dinheiro, a seleção brasileira, o mico-leão-dourado, a capa da revista, nada, nada pode vir antes do amor na ordem geral das coisas.
Feliz ou infelizmente, para homo ou heterossexuais, não há livre arbítrio nas coisas do coração. Não elegemos a pessoa por quem nos apaixonamos.
Apenas descobrimos, com as pernas bambas, as mãos suadas e uma flecha no peito, que é aquele ou aquela ali que queremos embaixo dos nossos lençóis. Conquistá-lo, conquistá-la e mudar o mundo se preciso for, para ficarmos como ele ou ela é a nossa única opção.
Se a pessoa em quem você pensa na cama, quando fecha os olhos, é uma garota, não há nada de errado. O caminho talvez seja um pouco mais duro, alguns vão achar estranho e talvez haja risadinhas pelas costas, mas isso tudo é fichinha perto da imensa felicidade que nasce quando, olhos nos olhos, vocês disserem “eu te amo”. A única tragédia afetiva é não amar. O resto a gente resolve.

Publicado na revista Capricho





Por: Luis Fernando Veríssimo

11 06 2008

Pensando bem em tudo o que a gente vê e vivencia e ouve e pensa, não existe uma pessoa certa pra gente. Existe uma pessoa que se você for parar pra pensar é, na verdade, a pessoa errada. Porque a pessoa certa faz tudo certinho! Chega na hora certa, fala as coisas certas, faz as coisas certas, mas nem sempre a gente tá precisando das coisas certas. Aí é a hora de procurar a pessoa errada. A pessoa errada te faz perder a cabeça, perder a hora, morrer de amor… A pessoa errada vai ficar um dia sem te procurar que é pra na hora que vocês se encontrarem a entrega ser muito mais verdadeira. A pessoa errada, é na verdade, aquilo que a gente chama de pessoa certa. Essa pessoa vai te fazer chorar, mas uma hora depois vai estar enxugando suas lágrimas. Essa pessoa vai tirar seu sono. Essa pessoa talvez te magoe e depois te enche de mimos pedindo seu perdão. Essa pessoa pode não estar 100% do tempo ao seu lado, mas vai estar 100% da vida dela esperando você. Vai estar o tempo todo pensando em você. A pessoa errada tem que aparecer pra todo mundo, porque a vida não é certa. Nada aqui é certo! O que é certo mesmo, é que temos que viver cada momento, cada segundo, amando, sorrindo, chorando, emocionando, pensando, agindo, querendo, conseguindo… E só assim, é possível chegar àquele momento do dia em que a gente diz: “Graças à Deus deu tudo certo” Quando na verdade, tudo o que Ele quer é que a gente encontre a pessoa errada pra que as coisas comecem a realmente funcionar direito pra gente…